Escrevo como um dos milhões de espectadores do Boechat. Escrevo como um dos milhões que se esforçam para acreditar que um ícone se foi de forma tão prematura, no auge do auge de sua carreira. Escrevo para tentar enfiar na minha cabeça que isso é o que temos e que assim temos que seguir.

Acompanhava, como muitos, seu comentário matinal na parceria entre o Café com Jornal e a BandNews FM. Aproveitava meu próprio café da manhã para saber um pouco mais do que ele pensava a respeito dos temas por ele abordados. Não o conhecia, mas tinha grande empatia por ele. Era como aquele amigo que invariavelmente você via toda manhã e conversava sobre os temas da atualidade para saber sua opinião – neste caso, respondendo mentalmente. Fui surpreendido pela notícia dada por amigos jornalistas, passei o resto do dia atônito.

Às vezes ácido e contundente em seus comentários, muitas vezes alegre e até mesmo engraçado quando a notícia assim o permitia, Boechat fez um jornalismo focado na população, na cidadania e por isso era adorado por quem acompanhava seu trabalho. O relato dos companheiros de profissão mostra claramente que a prioridade absoluta era o público. E assim foi. Enfático, e muitas vezes esbravejando pelos microfones por onde passou, deixou pelo caminho verdadeiros amigos, uns colegas do dia-a-dia, outros desconhecidos com quem trocava palavras entre um evento e outro.

Sendo já um jornalista respeitado e premiado pelo trabalho na imprensa escrita e posteriormente na TV, Ricardo Boechat encontrou no desafio do rádio sua verdadeira paixão. Havia, definitivamente, se encontrado profissionalmente. Era tão querido em todo o meio jornalístico que, ao saberem de sua morte, fizeram (e fazem) grande mobilização. Em uma situação raramente vista, emissoras de TV e Rádio esqueceram por um momento da concorrência que as norteiam, e em uníssono, lamentaram e transmitiram informações do profissional e amigo que partiu compartilhando imagens e cedendo profissionais uma às outras.

O acidente com o helicóptero que o transportava abortou prematuramente uma trajetória única, especial e que será lembrada por todos, amigos e admiradores. Quem dava a notícia, lamentavelmente, virou notícia. Que seu legado do bom jornalismo seja seguido à risca por seus pares. Que Deus conforte a “doce Veruska”, seus filhos e demais familiares dos envolvidos neste terrível acidente e dê forças para que sigam em frente.

E ainda que seja com um nó na garganta e com uma imensa tristeza, cabe aos jornalistas e aos milhões de ‘espectadores desconhecidos’, a qual me incluo, atender o pedido que Boechat fazia ao final de sua apresentação no Café com Jornal e na BandNews FM: “Toca o barco!”.